Mesmo depois de fazer mestrado e doutorado, posso dizer, sem dúvida, que o exame de admissão foi o maior desafio da minha vida. Primeiro porque eu quis, desde sempre, estudar no G.A.. Segundo porque, diferente da pós-graduação, que pode ser considerada opcional (especialmente se você não seguiu carreira acadêmica), o ginásio fazia parte do ensino considerado indispensável. Tinha que fazer. E pra completar a pressão, eu não fui matriculada em nenhum outro colégio.
Essa parte merece um pequeno registro. Naquela época, o exame de admissão já estava com os dias contados e a maior parte dos colégios particulares tinha autorização para receber diretamente aqueles alunos que conseguissem uma média ‘x’, não lembro agora o número exato. Muita gente que se inscreveu no admissão do G.A. tinha essa carta na manga. Se não passasse, ia pro Arqui (outro excelente colégio da época).
Mas minha mãe, sabendo que eu não gostava nem um pouco de estudar, me disse: “se você quer ir pro G.A. vai ter que se esforçar. Não vou lhe matricular no Arquidiocesano. Se você não passar, vai perder um ano.” Verdadeiro tratamento de choque, não é? Acho que ela tinha esperança que eu desistisse. O G.A. era liberal demais pra cabeça das mães daquela época porque os alunos de primeiro grau eram tratados da mesma forma que os universitários.
Por isso mesmo, eu jamais desistiria. Estudei, me esforcei, fiz aula de Geografia com Lílian Wanderlei, de Português com Hunald Alencar. Achava que ia passar, mas a tensão era grande. Lembro até hoje daquelas mães sentadas nos bancos do jardim da Faculdade de Filosofia, onde funcionava o G.A., botando o coração pela boca de ansiedade enquanto esperavam a gente voltar da sala onde eram feitas as provas.
O assunto mundial da época – embora já estivéssemos no fim de 1971 – ainda era a ida do homem à lua e certamente iríamos ter que responder perguntas como a data da chegada, o local de partida, o nome da nave, os nomes dos astronautas. Tínhamos tudo na ponta da língua. Parecia que aprova inteira seria sobre aquilo.
Havia uma grande tensão, também, em torno da prova de matemática. Lembro de ter ouvido, “de orelhada”, uma mãe dizer que Tanit era fera nos números. Outra exaltava a inteligência de Virgínia Felizola, que contou com riqueza de detalhes como foi a primeira prova. Leinha e Verinha (apelidos da época) sempre estiveram entre as melhres alunas do Brasília. Era no mínimo difícil, para alguém que não gostava de estudar, manter a autoconfiança diante de tanta excelência. Nunca fiquei tão ansiosa e nunca tive tanto medo de falhar.
Mas o dia do resultado chegou e meu nome finalmente apareceu na lista dos trinta privilegiados que, aos 10 ou 11 anos de idade, passariam a ser tratados como universitários. Esforço e tensão inteiramente recompensados: ninguém pra controlar a entrada, ninguém pra controlar a saída, disciplinas em sistema de crédito, trabalho de casa em equipe, substituição do uniforme de tergal com sapato Vulcabrás, por calça jeans, blusa branca e tênis – a vida que qualquer rebelde pediu pra ter.
Sylvia Leite